Movimentos de apoio a sem-terra invadem usina em PE
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FÁBIO GUIBU
da Agência Folha, em Ipojuca (PE)

Agricultores ligados a quatro movimentos de apoio aos sem-terra invadiram ontem, em Ipojuca (a 70 km de Recife, PE), uma usina de cana-de-açúcar em plena produção. O grupo reivindica a desapropriação da empresa com base em um "novo conceito" de reforma agrária que desejam ver implantado pelo governo.

O novo modelo faz uma "releitura" do conceito de função social da terra, base para a desapropriação. O governo, afirmam, usa a produtividade para essa avaliação. Os sem-terra querem que até áreas produtivas sejam desapropriadas, se houver problemas trabalhistas, dívidas com a União ou degradação ambiental.

A usina Salgado, uma das maiores do Estado, foi escolhida para ser invadida porque, apesar de ser produtiva, "deve R$ 85 milhões à Previdência, tem problemas ambientais e trabalhistas", disse o dirigente nacional do MLST (Movimento de Libertação dos Sem-Terra), Josival Oliveira. "Se o governo não cobra, nós executamos a dívida", afirmou.

Chamado para intermediar a crise, o superintendente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em Recife, Abelardo Siqueira, apoiou os trabalhadores rurais. Segundo ele, o novo conceito de função social da terra "já deveria ter sido incorporado" pelo governo federal.

"Se a usina deve realmente R$ 85 milhões, eles fizeram a ação correta", afirmou. "Se for verdade, vamos trabalhar para concretizar a primeira desapropriação por dívidas ao governo no Estado", declarou.

A assessoria do Incra, em Brasília, informou por telefone que o governo já usa critérios ambientais, trabalhistas e relativos a dívidas com a União para a obtenção de terra destinada à reforma agrária.

Além do MLST, também estão na área militantes da CPT (Comissão Pastoral da Terra), da Fetraf (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar) e da Fetape (Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco). Participaram da invasão 1.500 lavradores, segundo os organizadores. A usina avalia em 700 pessoas.

A propriedade foi tomada às 4h. Não houve confronto, mas a usina foi obrigada a paralisar a indústria, que processa 6.000 toneladas de cana por dia e deve produzir na atual safra 15 milhões de litros de álcool e 1,5 milhão de sacas de 50 kg de açúcar --metade para a exportação.

O prejuízo estimado é de R$ 600 mil por dia, segundo os proprietários, integrantes da família do ex-deputado federal Marcos Queiroz (PSB). Os invasores acamparam na área da sede administrativa, a poucos metros do parque industrial.

Os usineiros negam a existência de problemas ambientais e trabalhistas na empresa. Confirmam que há débitos com a Previdência, mas dizem que também há créditos e que o processo de acerto de contas está em negociação. A empresa não informa os valores.

À tarde, a empresa, que emprega 3.500 pessoas durante a safra da cana, entre setembro e março, entrou na Justiça com pedido de reintegração de posse. Foi atendida. Os invasores foram notificados da decisão, mas se recusaram a sair antes de se reunir, hoje, com representantes do governo federal.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/b...6u334971.shtml