Explique melhor essa tal alliance entre a burguesia Brasiliense e o lumpen-proletariado. Esse é o “populismo” a qual voce refere? Usar “populismo” pra falar da atualidade, eu acho que é acima de tudo impreciso.
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Elementos preliminares para a discussão de um programa político para o Distrito Federal
Um programa político não é uma plataforma eleitoral
Discutir e elaborar um programa político para uma cidade não é o mesmo que confeccionar uma plataforma eleitoral. Um programa político é um programa de ação que se propõe a transformar a realidade; é evidente que ações de governo podem contribuir – ou não – para essa transformação; mas constituem um elemento subordinado de uma verdadeira estratégia. Naturalmente, transformar a realidade só é possível a partir de um mínimo de conhecimento sobre esta realidade, conhecimento que não pode ser ingênuo.
O conhecimento crítico da realidade social, econômica, política, da cidade sobre a qual a ação política é proposta é o conhecimento da luta de classes que se desenrola no espaço geopolítico da cidade. O conhecimento da luta de classes não emana de uma concepção apriorística das classes em luta; ele passa pela análise detida e cuidadosa das diversas classes, frações e setores de classe que vivem e lutam no espaço urbano. Um programa político assim informado aponta para transformações nas relações de forças entre as classes e setores de classe. Situa de maneira clara quais as classes que deverão ser combatidas, neutralizadas, reforçadas, atraídas ou isoladas. Esta é a intenção aqui, e não a discussão sobre o número de postes que é necessário erguer na cidade – discussão que tem a sua própria importância, mas que se situa em outro momento, posterior, em que já saibamos quem, afinal, ganha com os postes, e por quê.
1. As classes e frações de classe no Distrito Federal
Classes sociais – e seus setores e frações – não são um dado de uma realidade objetiva, alheia à ação política concreta. É inútil, portanto, construir um catálogo a priori, começando pela alta burguesia monopolista financeira e terminando pelo lumpen-proletariado. As classes e suas frações se constróem na luta, uma luta que se desenrola historicamente. O fundamento de uma análise de classes, portanto, não é uma abstração teórica qualquer, mas uma reflexão sobre a história do espaço urbano a ser analisado. Este é o ponto-de-partida.
1.1. Uma burguesia profundamente anêmica
Ora, a história de Brasília é a história de uma cidade artificial, criada precipuamente para ser a capital política do país – e, de preferência, isolada dos movimentos reivindicativos e políticos dos trabalhadores e oprimidos. Brasília começa por não ser neutra: ela foi pensada e construída como um instrumento da luta de classes da burguesia e da oligarquia fundiárias contra os trabalhadores.
Por isto, Brasília foi criada para não ter um proletariado; e, para que não tivesse um proletariado, foi criada para não ter um setor industrial importante. Desta forma, o espaço urbano de Brasília não pôde contar, desde o seu início, com uma burguesia pujante. Primeiro, porque a burguesia de Brasília teve de se estruturar em torno do comércio e dos serviços; segundo por que o momento em que Brasília surgiu foi justamente o momento em que o capital estrangeiro começou a entrar decididamente no país.
Desta forma, a burguesia brasiliense é composta por setores excessivamente heterogêneos. O grande capital que se estabelece em Brasília vem de fora, não influi decisivamente na vida política da cidade. Bancos, grandes casas comerciais, atuam em Brasília, mas não têm sede aqui. Movimentam, juntamente com o setor público, uma classe média assalariada relativamente bem remunerada, mas que não tem capacidade política para dirigir a cidade. Uma extensa pequena burguesia se movimenta à sombra deste grande capital, com bastante vitalidade econômica, mas igualmente sem capacidade política.
Assim, o setor hegemônico da burguesia brasiliense só poderia ser o patriciado, ou tubaronato, urbano. A grande burguesia contratista, cuja existência econômica se vincula de forma umbilical com suas relações com o poder político local. São os concessionários do transporte urbano, os empreiteiros, os fornecedores dos governos local e federal, os intermediadores de mão-de-obra.
Este patriciado parasitário é um fenômeno social bem conhecido em qualquer grande cidade, e influi quase sempre de maneira muito intensa sobre a realidade política local. O que diferencia Brasília da maioria das outras cidades grandes do Brasil são duas características originais: primeiro, a virtual ausência de concorrência política: não há uma burguesia autóctone industrial, comercial, ou mesmo financeira, que seja pujante, capaz de disputar politicamente o controle da cidade, ou sequer de associar-se ao patriciado num patamar em que possa influir ou moderar a hegemonia dos tubarões; segundo, a falta de representatividade do patriciado, que não consegue articular, sob a sua hegemonia, os setores médios da sociedade. Daí a tendência permanente da política da cidade, desde a conquista da sua autonomia administrativa, para o populismo: incapaz de construir a pirâmide hegemônica que começa na alta burguesia e se enraíza na classe média, passando pelos diversos extratos do capital, o patriciado recorre cada vez mais ao lumpen-proletariado como base social.
A classe média de Brasília reage intensamente contra essa estranha aliança, que lhe parece uma encarnação do próprio Mal metafísico: a utilização política da pequena marginalidade suburbana pelos grandes ladrões do erário público. Esta reação se encontra polarizada em duas direções: primeiro, o discreto apoio do grande capital vindo de fora, que não se sente seguro com as aventuras populistas do patriciado local; segundo, o movimento das classes trabalhadoras.
The world is not as it is, but as it is constructed.
Falsely attributed to Lenin
Explique melhor essa tal alliance entre a burguesia Brasiliense e o lumpen-proletariado. Esse é o “populismo” a qual voce refere? Usar “populismo” pra falar da atualidade, eu acho que é acima de tudo impreciso.
Não acho que haja uma aliança entre a burguesia e o lumpen-proletariado; acho que existe uma utilização (em grande parte eleitoreira) das camadas mais baixas da classe trabalhadora (hoje acho que usei o termo "lumpen-proletariado" de maneira excessivamente abrangente nesse texto) por um setor da alta burguesia de Brasília. É sobretudo a manipulação política desses setores através da distribuição de terra pública - uma prática que coincidentemente ajuda a aliviar a tensão causada pela expulsão de mão-de-obra rural pelo latifúndio, particularmente o latifúndio goiano e do Oeste da Bahia.
Porque você acha que o termo "populismo" é impreciso?
Luís Henrique
The world is not as it is, but as it is constructed.
Falsely attributed to Lenin
A alta burguesia em Brasília distribui terra publica pro lumpen-proletariado rural? Uma espécie de reforma agrária? Tá envolvido o MST? Que partido compra votos com terra publica? Desculpe as perguntas, mais isso tudo e novidade pra mim.
O Estado faz essa distribuição, mas, evidentemente, ele age aqui como instrumento da alta burguesia local.
Não, não é uma reforma agrária, são terras urbanas. Não tem nada a ver com o MST, que, ao que eu saiba, é contra esse tipo de coisa.
O partido envolvido é o PMDB. Agora, o PMDB é um partido que tem práticas e políticas diferentes nos diversos estados - é mais um guarda-chuva de "partidos estaduais" do que um verdadeiro partido político nacional. Por isso, é importante explicar: é o PMDB-DF, cujo principal dirigente é o Senador Joaquim Roriz.
Luís Henrique
The world is not as it is, but as it is constructed.
Falsely attributed to Lenin